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quinta-feira, 23 de junho de 2011

Série de Dráuzio Varella causa constrangimento aos farmacêuticos do Brasil - Matéria referente a agosto de 2010


Reportagem sobre nova série do médico Dráuzio Varella, ‘É bom pra quê?’, veiculada na revista semanal Época, da editora Globo, em 16 de agosto último, constrangeu milhares de farmacêuticos em todo o Brasil que trabalham com medicamentos fitoterápicos. A série será transmitida pelo Fantástico e promete gerar polêmica entre diversos profissionais da área de saúde, por ameaçar a credibilidade da Política Nacional de Fitoterapia, adotada pelo Ministério da Saúde. Na entrevista de lançamento da série, o médico afirmou que a adoção das Farmácias Vivas enquanto política e o próprio reconhecimento da Organização Mundial de Saúde sobre o tema são ‘medidas absurdas’. “O que está por trás disso é uma questão política. Imagine se eu fosse o prefeito de uma pequena cidade do interior. Quanto custa um posto de saúde, médico, enfermagem, paramédicos etc? Custa caro. É muito mais barato fazer uma horta e mandar o médico receitar aquilo”.
Para a técnica da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), Robelma Marques, as opiniões do médico são equivocadas e distorcidas. ”Dráuzio Varella abordou sobre plantas medicinais, drogas vegetais, medicamentos fitoterápicos financiados pelo governo, medicamentos fitoterápicos registrados junto à ANVISA e até sobre suplementos alimentares de forma confusa, como se fossem uma categoria só, o que não é de forma alguma”. Uma consulta no site da ANVISA aponta que os medicamentos fitoterápicos só obtêm registro quando comprovam sua eficácia e segurança a partir de pesquisas científicas realizadas com pacientes tratados pela Fitoterapia e com a produção em indústrias detentoras de Certificado de Boas Práticas de Fabricação.
A reação dos profissionais farmacêuticos foi imediata. Especialmente porque a reportagem desconsidera a origem e competência do Programa das Farmácias Vivas que inspirou a política do Ministério da Saúde, criado pelo Professor Francisco José de Abreu Matos, da Universidade Federal do Ceará. A supervisora do Núcleo Estadual de Fitoterapia da Secretaria de Saúde do Ceará, Mary Anne Bandeira, explica que Na Universidade Federal do Ceará existem excelentes Centros de Pesquisas de Plantas Medicinais e Fitoterápicos. “Dr. Dráuzio Varella deveria ter conhecido este trabalho, quando aqui esteve, para se fundamentar melhor e saber o que são as verdadeiras Farmácias Vivas, que serviram de referência para a construção do Programa Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos para o SUS, o melhor Programa Nacionalista desta década, que está a serviço dos brasileiros”.
Presidente do CFF questiona Drauzio Varella. Médico responde
O Presidente do Conselho Federal de Farmácia, Jaldo de Souza Santos, enviou no dia 19 de agosto, uma carta ao médico Drauzio Varella, questionando-o sobre suas opiniões acerca de plantas medicinais e fitoterápicos manifestadas em entrevistas que concedeu à revista “Época”. O Dr. Drauzio Varella estreou neste domingo, um quadro no programa “Fantástico”, da “Rede Globo”, abordando plantas e fitos. Varella respondeu, no fim da tarde, a carta de Souza Santos. Ele diz condenar “a falta de estudos clínicos” relacionados a esses produtos. Veja a carta do Presidente do CFF a Drauzio Varella e a resposta do médico.
CARTA DO PRESIDENTE DO CFF, JALDO DE SOUZA SANTOS, AO MÉDICO DRAUZIO VARELLA
Brasília, 19 de agosto de 2010.
Dr. Drauzio Varella,
Tomamos conhecimento, com preocupação, sobre a sua opinião sobre plantas medicinais e fitoterápicos manifestada em matérias publicadas na revista “Época”. Plantas e fitoterápicos são, sim, objetos de estudos técnicos e científicos, inclusive por farmacêuticos. Neste sentido, temos a enorme satisfação de informar-lhe que o Conselho Federal de Farmácia (CFF), por meio de uma Comissão integrada por excelências em plantas, fitos e suas respectivas terapêuticas, vem estudando os mecanismos de ação, efeitos, reações adversas, interações entre os mesmos, alimentos e medicamentos alopáticos. As conclusões apontam para a eficácia do tratamento à base desses produtos.
De sorte que achamos precipitada a sua opinião, ao afirmar que a indicação de plantas e fitos para o tratamento de doenças é um erro, inclusive do Ministério da Saúde. Diante disso, solicito-lhe que repense as suas posições, para que o “Fantástico”, da “Rede Globo”, no qual o senhor fará uma série sobre o tema, não seja um programa que, além de deseducar, venha criar uma opinião negativa acerca das plantas e fitoterápicos, estudados e consagrados, sim, pela população, estudiosos, como farmacêuticos especialistas, além de outros profissionais da saúde, ainda que contrariando certos interesse econômicos.
Enviamos-lhe matérias publicadas em nossa revista, a “`Pharmacia Brasileira”, e, também, a “Carta de Porto Alegre”, as quais abordam o tema.
Atenciosamente,
Jaldo de Souza Santos,
Presidente do Conselho Federal de Farmácia.
Clique nos links e veja matérias publicadas na revista “Pharmacia Brasileira” e a “Carta de Porto Alegre”, que abordam o tema plantas medicinais e fitos.
CARTA-RESPOSTA DO MÉDICO DRAUZIO VARELLA AO PRESIDENTE DO CFF, JALDO DE SOUZA SANTOS
Caro professor Jaldo de Souza Santos:
Peço que o senhor não se preocupe com o conteúdo da série que faremos na TV. Minhas ideias sobre esse tema não são “precipitadas”.
Desde 1995 coordeno um projeto de pesquisa de atividade antineoplásica e antibacteriana em plantas da região do rio Negro, com apoio da Fapesp. Nossa extratoteca contém cerca de 2200 extratos, dos quais alguns mostraram intensa atividade antitumoral ou antibacteriana.
Esses resultados têm sido apresentados em congressos e publicados em revistas especializadas nacionais e internacionais. Só uma pessoa desquilibrada faria uma série na TV para vilipendiar um campo de pesquisa ao qual tem dedicado 15 anos de atividade.
Em nenhum momento afirmei que não existem pesquisas com produtos naturais no Brasil. Seria negar a existência do projeto que coordeno e desprezar o trabalho realizado pelos jovens cientistas que a ele se dedicam em tempo integral, além de desqualificar as pesquisas realizadas nos laboratórios do país inteiro. O que condeno é a falta de estudos clínicos dignos desse nome. O senhor sabe melhor do que eu que a atividade encontrada num sistema experimental nem sempre se confirma na clínica.
Se eu tratasse meus pacientes com câncer com os extratos que mostraram atividade contra linhagens de células malignas em nosso laboratório, seria considerado criminoso. Por que essa regra não vale para os que receitam produtos que não passaram pelos estudos de toxicidade e as avaliações clínicas exigidas para os medicamentos convencionais?
Está certo receitar extrato de alcachofra para “dores abdominais causadas por problemas hepáticos e das vias biliares” como está na lista do Ministério? Ou xarope de guaco para problemas respiratórios sem ter ideia do diagnóstico? Em que revista de impacto foi publicado o estudo que comprova a eficácia da babosa ou da graviola no tratamento do câncer?
Em minha opinião, professor, enquanto admitirmos nesse empirismo irresponsável a Fitoterapia jamais será levada a sério no Brasil. A incrível diversidade de plantas em nossas florestas poderá ter muitas utilidades, mas entre elas não estará o uso medicinal.
Estou certo de que um Conselho respeitado como o Federal de Farmácia também não compactua com a divulgação das crendices sobre o poder de cura das plantas que se espalham pelo país, algumas da quais com a chancela de órgãos oficiais.
Ao contrário do que o senhor entendeu, para mim a Fitoterapia é um dos caminhos mais promissores para obtermos medicamentos eficazes e mais baratos do que os atuais. Talvez seja esse o futuro de uma indústria farmacêutica verdadeiramente nacional.
Para encerrar, professor, convido-o a fazer uma busca no Pubmed à procura de estudos clínicos de fase III envolvendo fitoterápicos.
Atenciosamente
Drauzio Varella

Fonte: CFF

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