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quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Com ou sem nota?

Ontem, 7 de setembro, dia em que se comemora a independência do Brasil,  passeatas contra a corrupção tomaram as ruas de várias cidades. Segundo seus organizadores, o movimento teria tomado força por conta da absolvição da deputada Jaqueline Roriz (PMN-DF).
Pauta mais que legítima. A corrupção é um mal que assola o país, e pior, é um dos problemas cuja exata dimensão não se tem. Revela uma crise das instituições, mina os poderes e drena uma imensidão de dinheiro que deveria ser aplicado em áreas essenciais.
Se corrompe porque se acredita que outros farão o mesmo, que o dinheiro drenado não seria usado como deveria. Isso se espalha e, muitas vezes, é visto como estratégia de sobrevivência. Uma "equalização" das vantagens comparativas.
Mas, a passeata foi mesmo contra o que? Pela saída de Jaqueline (que, na sua defesa alega que os fatos de corrupção foram anteriores ao mandato e que, logo, não poderia ser julgada)? Contra o voto secreto no Congresso, que possibilitou a camaradagem dos deputados na absolvição da colega? Ou contra os políticos em geral?
Eles, os organizadores, respondem: "guerra contra o mau político, contra a corrupção que assola nas esferas federal, estaduais e municipais, contra as obras superfaturadas, contra as licitações viciadas e fraudulentas, contra os desvios de verbas…"
Pois é. "Contra a corrupção", contra todos,  é difuso, não tem alvo. Mas carrega, subliminarmente, que é contra a corrupção de agentes do Estado, em especial do Legislativo e do Executivo (curiosamente, no discurso, o Judiciário sequer é citado. Este poder que, muitas das vezes, é tolerante com a corrupção alheia).
Mas, ao mesmo tempo, os organizadores parecem se esquecer que existe a corrupção porque existe o corrupto e o corruptor, e que este último não é — via de regra — agente público. E quem é o corruptor? Quem também é responsável pela drenagem de recursos que afeta toda a população? Os "políticos"? Sim, também, mas não só!
É, por exemplo, aquele médico que tem dois preços, que ao final da consulta pergunta se o paciente vai querer nota. Se quiser, o preço é maior, claro, pois terá que pagar imposto.
O quanto de imposto deixa de ser pago assim? Mas, para o médico que cobra mais barato sem a nota, isso pouco importa já que ele joga na vala comum o dinheiro dos tributos: "Não pago porque vão roubar em Brasília". E o paciente pede sem nota. E as grandes doadoras de dinheiro para as campanhas políticas, as construtoras e outras concessionárias de serviços públicos? São altruístas?
E se pensarmos nos comerciantes que sonegam, não emitem nota fiscal, podem vender seus produtos mais baratos que o concorrente "honesto". Assim, vende mais, ganhando mercado da concorrência. Esta, por sua vez, ou se conforma com a perda relativa de mercado ou passa a usar a mesma estratégia, evitando os impostos pra vender mais barato ao consumidor. Questão de sobrevivência.
As passeatas contra a corrupção,  em que pese sua legitimidade, padecem de foco, de um alvo concreto. E, exatamente por isso, escolhe o caminho mais fácil: aponta o dedo para os outros, para os "políticos em geral", e se "esquece" de pedir a nota no consultório.
Mas tudo bem, resolvemos isso pagando um cafezinho para o guarda, que é camarada e me deixa estacionar aqui por alguns minutos. E dormiremos tranquilamente.


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